sexta-feira, 8 de novembro de 2013

[2] Lamentamos

LAMENTAMOS

   Após escutar meu pai dizer que estávamos falidos, meu mundo desabou! Senti tanto o baque, que quase desmaiei em frente à porta do escritório - o que dificultaria ainda mais minha situação, uma vez que estava escutando o diálogo escondido. O que seria de mim? O que seria da minha mãe? O que seria das minhas tardes de sexta-feira com festinhas privês na piscina, regadas a muito refrigerante? E minhas horas infindáveis em frente ao vídeo-game? Falir era um sinônimo de morte pra mim.
     Quase cambaleando com a notícia, segui até meu quarto e sentei sobre minha cama. Não era muito de fazer isso, mas comecei a pensar pela primeira vez na vida. Vender meus eletrônicos seria uma excelente ideia, mas, entendendo a lógica do mercado: se fizéssemos pelo verdadeiro preço, ninguém iria comprar por falta de verba. Se abaixássemos, nunca iriamos suprir nossas necessidades diárias. 
    Resumindo: estávamos ferrados
  O que mais poderia ser feito por mim para levantar capital? Prestar serviços na comunidade? Cortar a grama, talvez? Seria impossível: o sol das tardes do Rio de Janeiro somado ao trabalho frequente embaixo dele me daria um câncer de pele em poucos meses. E uma doença seria a última coisa que poderia se acometer sobre a gente após aqueles incidentes. 
     - Vamos morrer à míngua! - lamentava-me 
     Em determinado instante de minha reflexão, minha mãe adentrou ao quarto. Infelizmente ela viu as lágrimas que saiam de meu olho e certamente já sabia do que se tratava. Sentou-se em minha frente e proferiu em voz baixa: 
      - Você já sabe o que aconteceu, não é? 
     - Eu estava passando e... escutei! 
     - Uma hora ou outra teríamos que te contar... foi bom jogar isso sobre você de uma vez só. Evita sofrimento a longo-prazo! 
     - Evitar? Mãe, se essa história que o papai te contou lá no escritório for verdade, da demissão, dos processos... a gente tem muito mais para sofrer ainda! 
      - Não seja pessimista, filho! 
      - Como não ser pessimista numa conjuntura dessas? Isso me faz ter ainda mais peso em minha consciência de ter perdido tardes e tardes estudando. 
       Cara, devo admitir: isso era castigo! Em certa ocasião eu havia sido encarregado de levar o bolo da festa surpresa da minha tia Inês. Só que, antes de comprar o alimento mais tradicional da festa, lembrei que ela não havia me presenteado no "dia das crianças" passado. Com um sentimento de vingança tomando conta de mim, comprei um pastel de carne - Tia Inês é meio intolerante à gordura - e levei para a festa. Apanhei bastante naquele dia - acho que foi o único da minha vida - mas pelo menos me vinguei! :)
       - Não sei se você escutou essa parte da conversa... mas a gente decidiu o que vai fazer com você, meu filho! 
      - Decidiram? Como assim decidiram? Não faz nem dez minutos que eu saí da frente da porta do escritório e vim para o meu quarto e nesse ínfimo tempo vocês já decidiram o meu futuro? O que vai ser desta vez? Colégio interno? 
       - Filho, eu e seu pai decidimos que você vai se mudar para a casa da sua tia! 
       - Qual tia? 
       - Ah, ela vai adorar a sua presença lá. Ela está morando provisoriamente na periferia do Rio de Janeiro. Lembra da tia Inês
       Como não esquecer? A cada minuto tenho mais certeza: estava ferrado! 
CONTINUA...

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