FALIMOS!
Episódio 01
Olá, meu nome é Iago Barroso Silveira de Nóbrega Palhares.
Disse o nome completo pelo motivo de que você pode conhecer o sobrenome. Meu pai, César, é o editor da maior revista de fofocas de todo o território nacional. Bem, na verdade, ele ocupava esse posto à duas ou três semanas atrás.
Minha família tinha uma vida maravilhosa: casa gigante, carro confortável e caríssimo na garagem, televisão de milhares de polegadas e professores particulares que vinham até o domicílio me aplicar as mais diversas formas de tortura que o monstro chamado Estudo pode oferecer. Nunca pude me queixar da vida que tínhamos, porém, como todo playboyzinho da elite carioca, eu vivia reclamando de boca cheia!
- Pai, me compra o vídeo-game tal!
- Te comprei um na semana passada! Nem foi usado ainda!
- Mas meus amigos do curso de Artes Marciais já tem um novo, muito melhor do que aquilo que está lá no meu quarto. Eu quero! - gritava, tendo comigo um dos aparelhos mais sofisticados do mundo e sem ver nele seus benefícios.
- Tá certo, filho, eu compro!
E assim eu conseguia o que eu queria. O artefato principal de toda a criança para conseguir alguma coisa é a birra. Sou assim desde criança. Me lembro que quando eu era menor, exigia que minha mãe, Renata, me comprasse alguma coisa de que não me recordo no supermercado. Ela disse que eu já havia ganhado coisas demais só naquela pequena passagem pelo comércio e que pelo meu comportamento, eu também não merecia. É claro que virei no capeta!
Comecei a bater minha cabeça nas geladeiras onde ficavam os refrigerantes e cervejas até que o vidro que separava o cliente dos produtos foi alvo de rachaduras. Minhas mãe teve de comprar tanto o que eu desejava, quanto pagar os prejuízos causados por mim. Digamos que ela foi obrigada a fazer isso, uma vez que subi nas gôndolas de uma das fileiras e ameacei cometer um suicídio.
Sou filho único, o que acaba contribuindo para que eu seja o que sou. Imagino que se eu tivesse irmãos, teria que compartilhar todos os meus bens com ele. Fico olhando para aquele povo cheio de irmãos - meus tios, por exemplo, todos os 16 - e imaginando as dificuldades que eles passavam. Certamente, na hora de tomar banho de noite, a fila virava a esquina. Pense na hora das necessidades! Imagine só se todos eles adquirem uma disenteria após consumir uma bela de uma feijoada no período noturno... Santo Deus... coitada da minha avó no dia seguinte. O fedor seria brabo!
Mas enfim, um dia, logo após o Jornal Nacional começar, meu pai se trancou com minha mãe no escritório. Achei esquisito! Meu pai não perdia o noticiário. Comecei a escutar uma discussão e fui obrigado a escutar por trás das portas:
- O desgraçado do dono da Editora decidiu demitir um povo. E logo eu, o editor mais polêmico, que garantia as melhores matérias daquela revista, fui dispensado!
- Ele vai voltar atrás, meu amor, controle-se! - Dizia minha mãe
- Voltar atrás? Voltar atrás quando? Quando a empresa dele estiver a beira da falência porquê perdeu seu melhor funcionário? Aí, sou eu que vou me negar!
- Você consegue um emprego na concorrência. Você é o desejo de todas as outras revistas do país!
- Renata, eu não vou me rebaixar e buscar a concorrência! Ninguém vai me contratar sabendo que eu fui demitido. O dono da editora vai fazer minha caveira!
- Não havia pensando nisso!
- Claro que não; você é burra! - meu pai bateu a mão contra a mesa - E os problemas não terminam por aí...
- O que mais aconteceu?
- Todos os processos que colocaram em cima de mim, por causa das minhas matérias... decidiram armar uma emboscada e me processar bem agora!
- Você não pode estar falando sério!
- Eu estou! É quase certeza que foi uma arapuca armada por aquele desgraçado do dono da Editora.
E após de um pequeno período de silêncio, meu pai disse, em voz alta:
- Renata, lamento dizer isso, mas... estamos falidos!
CONTINUA...
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